28 de nov de 2016

Depressão: Uma Viagem ao Cérebro Humano.




Com a progressiva disponibilização de informação sobre saúde junto do grande público, atualmente, todos nós temos automatizado o conhecimento de que numa gripe, uma anemia, doença cardíaca ou qualquer outra condição médica, existem condições de funcionamento do organismo que nos afastam de processos de saúde e exigem intervenção ou recuperação para serem corrigidas ou geridas, num processo de retomada e re-equilíbrio internos.


No entanto, em saúde mental, ainda há uma idéia meio nebulosa, de que acontecem umas coisas na vida das pessoas que misteriosamente se misturaram com algo de errado e que vagamente pertence ao domínio da vontade, e que criaram contextos emocionais aos quais qualquer um – ou pelo menos, “os fortes” – poderiam resistir e contrariar. Ora, isto é peculiar de cada um, mas,generalizando, é como pensar que podemos fazer desaparecer uma gripe por “artes mágicas”, só pela força de vontade ou que ficamos doentes ,só porque somos” fracos de espírito”.


Nas condições psicológicas , tal como nas condições médicas , existem funcionamentos internos que estão em desequilíbrio homeostático/energético – há um mau funcionamento – e que têm de ser corrigidas em contexto próprio. Tal como em medicina, ainda há muito deste funcionamento organísmico que está sob estudo, sabendo-se que ainda resta um longo caminho a percorrer, para descodificar o intrincado e complexo mundo da fisiologia; mas não há por que continuar a pensar em termos  só de “humores” que afetam uns, ou outros com alguma falha de caráter – é errado, não é útil e apenas ajuda a perpetuar o adiamento da procura de ajuda/tratamento que se impõem para reverter uma situação de sofrimento e retomar a qualidade de vida.

Hoje, ilustramos o que acabamos de dizer com o tema da depressão, um dos temas simultâneamente mais comuns e pior interpretados pelo público. A depressão inclui um conjunto de apresentações clínicas que devem ser corretamente diagnosticadas, porque, dependentemente da sua forma de apresentação, assim requerem intervenções diferentes. Neste caso falamos de depressões maiores ou persistentes – havendo uma diferença sobretudo de severidade entre as duas.

De uma forma geral, a depressão atinge números terríveis na população: é a 2ª perturbação mais comum do foro mental e a razão mais frequente que leva as pessoas a dirigirem-se a psicólogos ou psiquiatras. Cerca de 1 em cada 20 homens vão sofrer um episódio depressivo ao longo das suas vidas e este número duplica nas mulheres. Além disso, é a situação da saúde mental que mais fácilmente pode ser mortífera: 1/3 das pessoas deprimidas considera a possibilidade de suicídio e 8% faz pelo menos uma tentativa de suicídio.A depressão gosta de companhia, atrapalhando-a sempre; As pessoas deprimidas têm maior tendência para hábitos de vida problemáticos – fumam mais, comem pior, não praticam exercício físico, têm mais problemas na adesão aos tratamentos de doenças crônicas, como a diabetes. Além disso, há uma elevada incidência de depressão aliada a doenças do foro médico, chegando a duplicar. E, estando muito ligada a quebras de produtividade tem um impacto brutal na economia.Vamos então mergulhar na neurodinâmica da depressão e analisarmos o que é que já se sabe sobre o estado de funcionamento do cérebro deprimido.

Neurodinâmica da depressão


Em termos cerebrais, a depressão é um trabalho em equipe de 3 grandes módulos:

• Os elementos superiores: hemisférios esquerdo e direito, e o córtex

• Os elementos de base: o hipocampo e a amídala

• O intermediário: córtex cingulado anterior (CCA)

Módulo superior:

O hemisfério esquerdo gosta do que é positivo, é mais analítico,  procura a ação e sabe falar, porque é uma sede importante da linguagem. Já o hemisfério direito tem uma queda natural para o que é negativo, apreende a realidade de uma forma mais global, e está muito envolvido nos comportamentos de recusas/não enfrentamento das coisas;.Num episódio depressivo, os dois hemisférios ficam em desequilíbrio: o lado direito fica mais ativo e o esquerdo retrai-se.Desta forma, as pessoas evitam o contato social (talvez mesmo por também terem dificuldades em explicar o que se passa com elas, porque a área da fala fica com menor capacidade) e evitam atividades que até teriam o potencial de as fazer gradualmente sentirem-se melhores. E ficam dominadas pelo negativo, sem grande capacidade para absorver o positivo, pela menor atividade do hemisfério esquerdo.

Módulo de base:

O hipocampo e a amígdala, duas pequeninas estruturas cerebrais, trabalham em conjunto. O hipocampo ajuda a criar novas memórias a partir da experiência, ajuda-nos a encontrar novos caminhos para o nosso destino, e dá-nos a localização espaço-temporal. A amígdala é o nosso botão de pânico cerebral, capaz de disparar os alarmes em frações de segundo, e é também a responsável por gravarmos aquelas primeiras impressões sobre os outros que são tão importantes para nos orientarmos socialmente, sabermos o que sentimos por eles, o que eles sentem por nós e, mesmo, descodificarmos as suas intenções em relação a nós.Quer o hipocampo, quer a amígdala diminuem de tamanho quando sujeitos a stress crónico, sempre presente numa depressão, o que debilita a sua atuação (não se preocupe; esse processo é revertido quando as situações de stress são levantadas). O hipocampo chega a ter uma redução de 10% a 20% de tamanho em pessoas que estejam crônicamente deprimidas.Quando estamos deprimidos, o hipocampo torna-se menos ativo, prendendo-nos na incapacidade de sairmos de um modo letárgico. Já a amígdala fica mais ativa, o que faz com que o medo e a ansiedade se tornem presentes em maiores doses, com a amígdala  enviando um fluxo contínuo de mensagens emocionais negativas para os elementos superiores, dizendo ao córtex que  devia  se preocupar

O intermediário:

Como um gestor intermédio, o CCA recebe e gere informações “de cima e de baixo”. Num episódio depressivo não temos medida, tentando criar algum equilíbrio interno, mas sem grande sucesso. Uma das coisas que faz habitualmente é monitorizar o nosso funcionamento, procurando erros e ativando-se quando encontra um. Quando se instala uma depressão, as memórias que nos surgem são apenas as negativas, porque a memória é um processo dependente do estado emocional – se estamos contentes, lembramo-nos de coisas boas, mas, se estamos tristes só nos conseguimos lembrar do que foi também triste. Por isso, o ACC encontra uma imensidade de coisas que correram mal e fica hiper-ativado.Além disso, como também tem um papel importante a selecionar e a codificar as experiências que passam ou não para a memória de longo prazo, quando fica muito ativado, e os seus parceiros de baixo estão de mãos cheias com o stress e literalmente a encolherem, torna-se-lhe mais difícil prestar atenção ao que de novo se passa na vida, ficando a braços apenas com as memórias difíceis, mesmo que na realidade (lá fora) se estejam a passar coisas boas. Ficamos com tudo o que foi amargo e surdos ao que é bom.

E agora?

Bem, em psicoterapia, com ajuda das intervenções eficazes – e há várias abordagens demonstradas como muito eficazes em depressão – são criadas as condições, com técnicas criteriosamente escolhidas, para quebrar o ciclo vicioso de negativismo e inacção que mantém o cérebro neste modo e que, de outra forma, nos prenderia numa espiral descendente de negativismo. Algumas situações requerem intervenção psicofarmacológica, de acordo com critérios que começam  estar objetivados, pelo que já é possível o profissional de saúde dizer com alguma certeza se deve “tomar comprimidos” ou não, em conjunto com a intervenção psicoterapêutica.O que é fundamental reter: a depressão é muito comum e é uma doença séria que exige tratamento, tão rápido quanto possível. O tratamento é eficaz e existem diversas intervenções capazes de conseguirem resultados e fazê-lo sair de um estado que degrada a qualidade total de vida.




“A depressão ainda é um dos maiores segredos do cérebro humano”

Neurocientista aponta que o problema não tem origem apenas psicológica, mas também orgânica

Mesmo com todos os avanços da ciência, um problema tão antigo quanto comum permanece sendo um dos maiores desafios da ciência: a depressão. Desvendar esse complexo mistério é um dos trabalhos de Gitte Moos Knudsen, neurologista dinamarquesa e pesquisadora-chefe da Unidade de Pesquisa em Neurobiologia do Hospital da Universidade de Copenhagen (Dinamarca). . Gitte alcançou destaque ao identificar padrões de atividade cerebral que apontam funcionamentos cognitivos relacionados à depressão. Veja o que mais ela fala sobre o assunto.

Quais são os principais desafios da neurociência hoje, e como os especialistas no assunto vem tentando superá-los?

Penso que o maior desafio é entender como o cérebro humano funciona. Quanto as questões clínicas, as doenças que mais incomodam são a depressão, a doença de Alzheimer e outros danos que afetam uma grande quantidade de pessoas. É importante entender que essas doenças chamadas mentais são, na verdade, cerebrais.

O cérebro humano ainda é um órgão misterioso, cheio de segredos?

O cérebro humano ainda esconde diversos segredos, e a razão para isso é o fato dele ser um órgão extremamente complexo. Entender seu funcionamento é mais complexo ainda. Nossos cérebros possuem bilhões de neurônios que atuam em conjunto de uma forma dinâmica para modular nossas respostas às demandas do ambiente. Também existem diversos neurotransmissores e hormônios. A interação ente o genoma e os fatores epigenéticos, que pode ser definida de maneira simplificada como a maneira pela qual o ambiente modela o nosso sistema nervoso, é uma questão extremamente complexa e desafiadora. Portanto, existem diversas questões ainda a serem descobertas, mas penso que já avançamos consideravelmente rumo ao entendimento de como o cérebro humano funciona.

Quais as principais ameaças que nós humanos oferecemos a nosso cérebros?

As maiores ameaças se relacionam às drogas e lesões traumáticas, mesmo aquelas aparentemente leves. Essa questão tem sido cada vez mais debatida. As lesões que os jogadores de futebol americano sofrem são um exemplo, mas existem diversos outros tipo de concussões e contusões repetidas que passam despercebidas. A adoção de um estilo de vida pouco saudável, o estresse crônico e a presença de doenças clínicas não tratadas, como a hipertensão e o diabetes, também constituem em ameaças relevantes. Estamos progressivamente mais conscientes desses riscos e necessitamos ensinar à população em geral como evitá-los.

E que drogas são as mais danosas ao sistema nervoso?

Essa é uma questão complexa, já que devemos considerar fatores como os efeitos agudos e crônicos das drogas e o quão difundida é sua utilização. Se analisarmos quais drogas causam dano a um número maior de pessoas, no topo dessa lista de efeitos estão o álcool e o hábito de fumar. Não apenas por seus efeitos diretos sobre o cérebro e o corpo, mas também por sua utilização amplamente difundida. As legislações não abordam os perigos potenciais e a toxicidade dessas chamadas “drogas lícitas”. Talvez seja a hora de repensarmos nossa posição sobre isso não apenas como indivíduos, mas também como sociedade.

A depressão é uma doença do cérebro? Não é apenas uma doença psicológica, mas também orgânica?

A depressão é uma doença cerebral, que pode ser tratada de diversas maneiras. O fato da psicoterapia ser uma dessas maneiras não significa que a depressão seja um fenômeno de origem psicológica. Essa forma equivocada de pensar leva algumas pessoas a considerar que poderia ser possível aos pacientes superar a doença apenas com a vontade de mudar, e esse definitivamente não é o caso. Essas pessoas possuem uma doença cerebral e simplesmente não podem fazê-la desaparecer.



Essa reação pode ser descrita como o surgimento de padrões de atividade cerebral relacionados a um predomínio, em termos de valorização, dos aspectos negativos das experiências derivadas da exposição ao ambiente. Isso leva a uma sobrevalorização das emoções negativas, que acabam por anular as emoções positivas. Dessa forma, uma visão negativa prevalece sobre a visão neutra ou positiva dos fatos. Esse é o problema cognitivo básico relacionado à depressão.

Os antidepressivos tem sido prescritos de maneira exagerada? Eles são ruins para o cérebro?

Estou convencida de que os antidepressivos podem ser prescritos de forma exagerada em certas circunstâncias, e esse fato talvez esteja relacionado ao surgimento de uma percepção negativa desses medicamentos em certos meios. Como qualquer tratamento médico, os antidepressivos devem ser utilizados de forma cautelosa, e somente quando prescritos por médicos qualificados. Da mesma forma, também estou certa de que esses medicamentos são um dos melhores recursos que podemos utilizar para ajudar as pessoas que sofrem de condições incapacitantes como a depressão e algumas outras doenças mentais.

A depressão é uma doença crônica, ou seja, uma vez alvo do problema, a chance dele voltar é sempre maior?

O estudo dos fatores de risco ao cérebro humano pode nos levar a identificar alguns dos mecanismos básicos da depressão. A análise desses fatores pode nos proporcionar uma compreensão da doença sem fatores geradores de confusão que possam enviesar nossa percepção. É o que acontece, por exemplo, quando observamos o cérebro de uma pessoa deprimida que possua graves problemas sentimentais associados à depressão. Nesses casos, a doença é também mais difícil de ser tratada. É verdade que a depressão é um problema que tem uma tendência a reaparecer ao longo da vida, mas eu não a classificaria como uma doença crônica. Episódios depressivos não são uma condição crônica, e talvez seja mais adequado considerar a depressão como uma doença caracterizada por exacerbações, cujas crises podem ser desencadeadas pela exposição a fatores ambientais, embora também ocorram na ausência de qualquer fator desencadeante identificado

Depressão destrói partes do cérebro, afirma estudo-

A depressão persistente é causadora de danos cerebrais ao invés de ser um fator predisponente para isso, concluíram pesquisadores após décadas de hipóteses não confirmadas.(Fonte-Ciência online)

Umestudo publicado hoje na revista Molecular Psychiatry provou de uma vez por todas que a depressão recorrente encolhe o hipocampo – uma região do cérebro responsável pela formação de novas memórias – levando a uma perda da função emocional e comportamental.O encolhimento do hipocampo tem sido associado à depressão, mas estudos anteriores não foram conclusivos. Amostras de pequenas dimensões, variando os tipos de níveis de depressão e de tratamento, assim como a variação nos métodos de recolha e interpretação dos resultados, em conjunto conduziram a resultados inconsistentes e muitas vezes conflitantes.

Agora, através de uma análise global e transversal de imagens cerebrais de 9.000 pessoas, os cientistas foram capazes de conclusivamente associar os danos cerebrais à depressão. O encolhimento do hipocampo surge naqueles em que a depressão começa cedo (antes da idade de 21), assim como em pessoas que têm episódios recorrentes de depressão.Os pesquisadores notaram que era essa persistência que produzia o dano. De fato, aqueles que têm apenas um episódio de depressão não têm um hipocampo menor, por isso o tamanho do hipocampo não é um fator predisponente, mas uma conseqüência do estado da doença. Isso coloca a ênfase na identificação precoce dos casos persistentes ou recorrentes mais graves.É importante ressaltar que, em sistemas de identificação precoces, os cientistas devem dar atenção áqueles em que a depressão persiste ou é recorrente, porque eles são os únicos que vão ser mais prejudicados do ponto de vista do dano cérebro.Os pesquisadores utilizaram dados de scans de ressonância magnética (MRI) do cérebro e dados clínicos de 1.728 pessoas com depressão major e 7.199 indivíduos saudáveis, combinando 15 conjuntos de dados da Europa, EUA e Austrália. As amostras foram obtidas a partir da base de dados de grupo Enigma – um consórcio internacional que investiga perturbações psiquiátricas.

Este estudo confirma – numa amostra muito grande – uma descoberta que tem sido relatado em algumas ocasiões. É interessante que nenhuma das outras áreas subcorticais do cérebro sofram um efeito tão nefasto de forma tão consistente. Por esse movito, também se confirma que o hipocampo é particularmente vulnerável à depressão.


O hipocampo faz parte do sistema límbico do cérebro, ou do que é conhecido como o seu centro emocional. 

O sistema também contém a amígdala, uma outra parte do cérebro que parece também ser afectada pela depressão, mas em menor escala. O hipocampo desempenha um papel importante na consolidação e formação de novas memórias.Ainda assim, e apesar dos resultados do estudo serem importantes, eles não são susceptíveis de afectar imediatamente o tratamento clínico dos pacientes com depressão. Tal não acontecerá do dia para a noite, mas a investigação não deixa de ter implicações para o desenvolvimento de melhores tratamentos para a depressão.Assim, os investigadores devem no futuro medir os volumes das regiões individuais dentro do hipocampo, que são responsáveis ​​por diferentes funções cognitivas. Ter uma melhor compreensão de como são as diferenças de volume regionais proporcionará uma maior capacidade para tirar conclusões que visem o tratamento.Os cientistas esperam agora confirmar os danos do hipocampo na depressão através de estudos empíricos dirigidos precisamente a verificar esse facto. É importante notar, contudo, que os efeitos da depressão sobre o cérebro são reversíveis com o tratamento certo para o indivíduo, até porque o hipocampo é uma das áreas mais importantes de regeneração do cérebro, concluem os pesquisadores.

ESTRESSE E DEPRESSÃO LIGADO ÁS EMOÇÕES-~pelo Dr Drauzio Varella

Na depressão, o existir é um fardo insuportável. “A tristeza é tanta que acordo pela manhã e não encontro razão para levantar; só saio da cama porque permanecer deitada pode ser pior”, queixou-se uma senhora depois do terceiro episódio da doença. “Na depressão, a vida fica por um triz”, observou ela.Depressão é a tristeza quando não tem fim, quadro muito diferente do entristecer passageiro ligado aos fatos da vida. É uma doença potencialmente grave que interfere com o sono, com a vontade de comer, com a vida sexual, com o trabalho, e que está associada a altos índices de mortalidade por complicações clínicas ou suicídio .É a mais comum de todas as enfermidades psiquiátricas, acomete mais as mulheres e apresenta caráter recidivante: depois do primeiro episódio, a probabilidade de ocorrer outro é de 50%; depois do segundo, sobe para 75%; e, depois do terceiro, para pelo menos 90%.



Se é uma doença psiquiátrica, que alterações acontecem no cérebro das pessoas deprimidas?Há 40 anos a explicação mais aceita tem sido a de que no cérebro dos deprimidos haveria diminuição da produção de certos neurotransmissores (substâncias que agem na transmissão de sinais entre os neurônios), entre os quais a serotonina provávelmente exerceria papel preponderante.A idéia de que baixos níveis de serotonina em certas áreas do cérebro seriam a causa da depressão, foi reforçada pela demonstração de que o aparecimento de medicamentos capazes de aumentar as concentrações cerebrais desse neurotransmissor (das quais as mais populares são a fluoxetina e a sertralina) beneficiou grande número de pacientes.Nos últimos dez anos, no entanto, a hipótese dos níveis inadequados de serotonina passou a ser cada vez mais contestada. O principal argumento contrário a ela foi o de que, embora concentrações diminuídas desse neurotransmissor tenham sido detectadas no sistema nervoso central de vítimas de tentativas violentas de suicídio, nunca foi possível demonstrar deficiência de serotonina no cérebro de pacientes deprimidos.

Em edição especial, a revista “Science” traz uma discussão sobre o conjunto de idéias mais aceito atualmente para explicar a depressão: a hipótese do estresse.Segundo essa hipótese, em resposta aos estímulos agressivos do ambiente, o hipotálamo produz um hormônio (CRF) para convencer a hipófise a mandar ordem para as suprarrenais produzirem cortisol e outros derivados da cortisona.Diversos trabalhos experimentais mostraram que esses hormônios do estresse (CRF, cortisol e outros) prejudicam a saúde dos neurônios, porque modificam a composição química do meio em que essas células exercem suas funções.

A persistência do estresse altera de tal forma a arquitetura dos circuitos neuronais que chega a modificar a própria anatomia cerebral. Por exemplo, provoca redução das dimensões do hipocampo, estrutura envolvida na memória, e área fundamental para a ação das drogas antidepressivas.

Pesquisadores da Universidade de Emery, em Atlanta, demonstraram a existência de períodos críticos na infância em que sofrer violência física, abuso sexual, ausência de cuidados maternos e outros tipos de estresse emocional podem conduzir à hipersecreção de CFR no hipotálamo, com consequente liberação de cortisol pelas suprarrenais, alterações associadas à depressão na vida adulta. Os pesquisadores concluíram que “muitas das alterações neurobioquímicas encontradas na depressão do adulto podem ser explicadas pelo estresse ocorrido em fases precoces da infância”.De fato, no estudo clínico conduzido em Atlanta, 45% dos adultos com quadros depressivos de pelos menos dois anos de duração haviam sido abusados, negligenciados ou sofrido perda dos pais na infância.Outro achado importante para definir o papel dos hormônios do estresse foi a demonstração recente de que a injeção de CRF diretamente no cérebro de animais de laboratório induz o aparecimento de quadros típicos de depressão e de distúrbios de ansiedade, sugerindo que depressão e ansiedade tenham mecanismos comuns e possam ser induzidas por fatores semelhantes. Talvez seja essa a justificativa para a maioria das pessoas com depressão na vida adulta referir personalidade hiper-ansiosa na infância e adolescência.



O ESTRESSE E A DEPRESSÃO

Até meados do século 20 acreditava-se que o número de neurônios era fixado no nascimento e permanecia estático durante toda a vida, entretanto, graças às pesquisas na área psiconeurológica sabe-se hoje que novos neurônios continuam sendo gerados no cérebro adulto de diversos animais, inclusive no ser humano. E o mais impressionante é que diversos fatores ambientais, entre eles o estresse, influenciam na reprodução dessas células nervosas.Durante décadas a ciência discutiu, sem chegar a conclusão alguma, a importância do ambiente e/ou da constituição na causa dos transtornos emocionais. Havia partidários da tendência psicodinâmica, atribuindo prioritÁriamente às vivências o desenvolvimento dos transtornos psíquicos e, por outro lado, havia partidários da corrente organicista, os quais arrastavam para o orgânico a responsabilidade quase exclusiva das alterações emocionais. O bom senso recomendava uma visão organodinâmica para esta questão, uma síntese das duas anteriores.



As pesquisas sobre as influências do ambiente na reprodução de novos neurônios e na estrutura cerebral (plasticidade) podem representar uma luz no fim do túnel; vivências traumáticas são capazes de inibir a reprodução neuronal e alterar a forma e tamanho de estruturas cerebrais, principalmente do hipocampo. Isso significa que nossas vivências influenciam na estrutura e na função de nosso cérebro.

Mas qual a importância dessa reprodução de neurônios? Entre outras coisas conhecidas e muitas desconhecidas, sabe-se hoje que a depressão é marcantemente influenciada pela renovação de neurônios, ou neurogênese, como é chamada.

Pesquisas mostram como as vivências e fatores ambientais acabam interferindo na microanatomia, na estrutura e na função cerebral. Resumindo, isso quer dizer que o estresse prolongado, as tensões crônicas, momentos repetitivos de raiva, de ansiedade, podem modificar a estrutura do cérebro.Não obstante e por outro lado, imagens do cérebro de pacientes deprimidas mostram uma diminuição de uma estrutura cerebral, o hipocampo. Estamos longe ainda de descobrir se foi o ovo ou a galinha que veio primeiro; se a depressão determina alterações no hipocampo ou se são estas que determinam a depressão. Os novos conhecimentos são cada vez mais impressionantes.


É certo que a exposição ao estresse tem um papel importante no desenvolvimento da depressão, no entanto, os mecanismos envolvidos nesta relação ainda são pouco conhecidos. Neurológicamente há evidências sobre a participação do hipocampo no desenvolvimento da depressão, e o estresse parece ser um importante fator na a diminuição da neurogênese. Conseqüentemente, o estresse e a inibição da neurogênese são importantes fatores no desenvolvimento da depressão.

Neurocientistas proeminentes defendem a teoria de que o mecanismo através do qual o estresse induziria depressão estaria ligado ao hipocampo: os hormônios do estresse suprimiriam o nascimento de novos neurônios nessa estrutura crucial para o processamento da memória. Tal suspeita ganhou ímpeto especialmente depois da publicação, meses atrás, de uma descoberta inesperada: depois de duas ou três semanas de tratamento com drogas antidepressivas começam a nascer novos neurônios no hipocampo (neurogênese). Esse achado explicaria também por que, apesar de os antidepressivos elevarem imediatamente os níveis cerebrais de serotonina, sua ação benéfica só se manifesta semanas mais tarde.

O conhecimento da arquitetura dos circuitos cerebrais envolvidos na depressão adquirido nos últimos dez anos provocou uma explosão de ensaios terapêuticos com drogas dotadas de mecanismos de ação muito diferentes das atuais. Estamos no limiar de descobertas que revolucionarão o tratamento dessa enfermidade tão debilitante.O hipocampo  era tradicionalmente relacionado à memória e aprendizagem, mas, pesquisas mais recente associam essa estrutura cerebral às respostas ao estresse e à neurogênese. Dentro desta linha de pesquisa se constata que o estresse pode causar alterações plásticas no hipocampo, as quais incluem alteração nos dendritos dos neurônios e inibição da neurogênese. Fechando hipóteses, sabe-se também que a depressão e os efeitos dos antidepressivos também têm sido associados à inibição e estimulação da neurogênese respectivamente.



Para facilitar o entendimento, é bom ter em mente que a função cerebral sadia precisa da neurogênese. Voltando ao hipocampo, muitos trabalhos mostram associação entre depressão e alterações cerebrais estruturais, notadamente no hipocampo. Segundo estudo bem elaborado por Lupien e col., a atrofia do hipocampo observada na depressão seria decorrente dos níveis elevados do cortisol, produzido pelas supra-renais durante o estresse. Coerentemente, está cada vez mais evidente que os antidepressivos podem prevenir a atrofia do hipocampo, bem como aumentar a neurogênese, principalmente se seu uso for crônico.Estudos de Sheline e colaboradores sobre a imagem cerebral também mostraram haver uma diminuição do volume do hipocampo em mulheres idosas com depressão, comparado com mulheres sem depressão e da mesma idade. Novamente constata-se que a perda de neurônios e a diminuição ou inibição da neurogênese deve-se a uma neurotoxicidade causada pela liberação excessiva do cortisol  pelas glândulas supra-renais durante o estresse. Esse aumento na liberação cortisol está fortemente relacionado aos episódios de depressão recorrentes.Três anos mais tarde, completando essa linha de pensamento, o mesmo grupo de pesquisadores relatou que a atrofia hipocampal presente nos pacientes com depressão se relaciona mais com a duração da doença do que com a idade dos pacientes (van Riedel, 2003).Em relação aos antidepressivos, também se estuda os efeitos desses medicamentos sobre o fenômeno da neurogênese. Em 2000, Malberg e colaboradores mostraram que o tratamento com antidepressivo aumentou a neurogênese na região do hipocampo de ratos. O mesmo efeito não se observa com o uso de antipsicóticos. No ano seguinte esses resultados foram corroborados por Czeh e colaboradores. Nesse sentido, há fortes evidências de que os antidepressivos são capazes de aumentar a maturidade dos neurônios, assim como também a proliferação e sobrevida dos mesmos.Até o momento, os resultados das pesquisas são sugestivos de forte associação entre a diminuição de neurogênese e a depressão. Pode-se ainda cogitar sobre a diminuição da neurogênese preceder a depressão, aumentando a vulnerabilidade da pessoa às vivências estressoras ou mesmo modificando a capacidade adaptativa da pessoa ao ambiente (Scorza e colab., 2005). Por outro lado, esses estudos sobre neurogênese não invalidam outros fatores envolvidos na depressão, como por exemplo, a genética, os neurotransmissores, hormônios, estressores psicossociais e outros.


FONTE;Ballone GJ – Estresse e Alterações Cerebrais – in. PsiqWeb, www.psiqweb.med.br

O lítio é o mineral que inibe no cérebro a produção de PLA 2 e, com isso, promove a regulação dos receptores, fazendo com que os do tipo 1 da serotonina aumente e os tipos 2 de serotonina e da dopamina diminuam, além de aumentar a produção desse receptor. Trata-se de um átomo muito pequeno, que é liberado nos neurônios junto com o oxigênio, pelas hemácias do sangue.Atualmente utiliza-se muito o carbonato de lítio no combate à depressão, mas essa prática vem sendo questionada pela psiquiatria ortossistêmica em função do baixo poder de penetração desse composto nas células. Para produzir resultados nos pacientes, o carbonato de lítio acaba sendo administrado em doses altas e, por isso, é comum provocar problemas, como distúrbios na glândula tireóide.Para piorar o quadro, convencionou-se dosar a quantidade de lítio no plasma sanguíneo, o que é um equívoco. O ideal é fazer a dosagem do lítio nas hemácias, o que é menos simples, mas que de fato pode verificar o teor intracelular do mineral. O lítio das hemácias deve estar sempre mais alto que o plasmático, para garantir que o organismo tenha condições de sair da depressão.

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