16 de jan de 2017

A bizarra morte do Papa Inocêncio VIII e a Caça as Bruxas.



Sempre tivemos o sangue humano, dentro do fenômeno religioso, associado à práticas pagãs e heréticas. Mas pouco se comenta que a maior Igreja do mundo, não de uma forma ritualística, mas física, recorreu ao mesmo na tentativa de salvar um Papa há 500 anos. Oficialmente, as primeiras transfusões de sangue ocorreram em 1665, em Oxford, Inglaterra, quando Richard Lower se divertia retirando sangue de animais e injetando em outros. Dois anos depois, ...

no dia 16 de junho de 1667, o médico francês, Dr. Jean Baptiste transfundiu aproximadamente trezentos mililitros de sangue de ovelha em um jovem de quinze anos. Apesar das boas intenções do Dr. Baptiste em salvá-lo, o jovem, claro, morreu mais tarde. A primeira transfusão com sucesso é atribuída ao inglês James Blundell, em 1818, ao recorrer ao método para salvar a vida de mulheres com hemorragia pós-parto. Muito antes destes fatos, na madrugada de 25 de julho de 1492, na então capital do catolicismo, Roma, médicos se desesperavam com as infrutíferas tentativas de salvarem a vida do Pontífice Inocêncio VIII. O Papa, completando 60 anos naquele dia, já se encontrava moribundo e em coma. Um dos médicos ali presentes, sugeriu que a única coisa capaz de salvá-lo, seria o sangue de garotos “sadios de corpo e alma”. Logo, conseguiram três meninos de dez anos de idade cada um, para, mediante a oferta de um ducado, ofertarem o seu sangue para salvarem o Vigário de Cristo.

Como na época era desconhecido o conceito de circulação e de métodos intravenosos, a transfusão seria feita via oral. O primeiro candidato teve o seu sangue retirado e inoculado na boca do Papa, falecendo em seguida. Chegaram a conclusão que foi retirada uma quantidade excessiva de sangue. Apesar desta morte, o Papa apresentou melhoras, o que serve de incentivo para a junta médica passar para o segundo voluntário.

Um pouco mais comedido, o segundo garoto retirou menos sangue. O menino, apesar da fraqueza, sobreviveu. Contudo, o Papa Inocêncio VIII teve febre alta e seus rins pararam de funcionar. Para sorte do terceiro garoto, o Papa faleceu antes que retirassem o seu sangue. Segundo o escritor italiano Stefano Infessura, os três garotos faleceram, mas os dados são controversos, ficando mais aceito que apenas o primeiro morreu.

Inocêncio VIII, que teve o seu pontificado de 1482 até o ano de sua morte era famoso por ter tido 16 filhos com mulheres casadas. Sua maior realização como Supremo Pontífice, foi o de delegar maior poder aos inquisitores para prenderem, torturarem e punirem todas as pessoas suspeitas de bruxaria. Quis o destino que a sua morte ainda custasse o sangue de inocentes.

O Papa Inocêncio VIII e a Caça às Bruxas


No livro “A Marcha da Insensatez” (Bárbara W. Tuchman, 1984), a autora dedica um capítulo a seis papas da Renascença que levaram a Igreja Católica a tal nível de desmoralização e desordem que acabaram provocando a cisão protestante : Sisto IV (1471-84), Inocêncio VIII (1484-92), Alexandre VI (1492-1503), Júlio II (1503-13), Leão X (1513-21) e Clemente VII (1523-34). Giovanni Battista Cibo (1432-1492) tornou-se bispo aos 37 anos e depois cardeal no pontificado de Sisto IV. Consta que sua ascensão foi conseguida graças a favores sexuais concedidos a Paulo II e Sisto IV, dos quais foi favorito.

Considerado um dos papas mais fracos do século XV, sua indicação aconteceu graças a um impasse na feroz disputa pelo papado entre os Cardeais Bórgia e Giuliano della Rovere. Temerosos de que a disputa entre os dois levasse à escolha do Cardeal Barbo, tido como homem de princípios rígidos e um possível reformador da Igreja, uniram forças e conseguiram eleger o inofensivo Cibo, que tornou-se papa com o nome de Inocêncio VIII. Foi o primeiro papa a reconhecer publicamente seus filhos e filhas bastardos, para os quais procurou arranjar casamentos vantajosos. Um de seus filhos, Franceschetto, tornou-se conhecido por seus excessos, e deve ter dado um bocado de dor de cabeça, até que o papa conseguiu casá-lo com uma das filhas do poderoso Lourenço de Médici, de nome Madalena.

Seu papado foi gasto com os luxos e as disputas políticas usuais da época. Para elevar a arrecadação, aumentou o número de cargos negociáveis, e acabou perdendo o controle da corrupção dos seus administradores, o que resultou no escândalo da venda de bulas falsificadas. Teve o mérito de apoiar a proposta de Cristóvão Colombo junto ao rei de Espanha, mas também promulgou o édito expulsando da Espanha todos os judeus não convertidos ao Cristianismo. Em 1492, Inocêncio VIII tornou-se a primeira pessoa a receber uma transfusão de sangue, numa tentativa desesperada de reanimá-lo quando já estava em coma. Não resultou, e os três jovens doadores também morreram pouco depois, possivelmente devido à perda de sangue ou embolia.

Infelizmente para milhares de pessoas, principalmente mulheres, que foram as mais afetadas, Inocêncio VIII logo no início de seu pontificado, teve a atenção voltada para a questão da bruxaria, e emitiu em dezembro de 1484 a bula “Summis desiderantes affectibus”, cujo texto completo mostramos abaixo. Os dois inquisidores dominicanos encarregados do assunto, Heinrich Kramer e James Sprenger produziram em seguida um dos mais tenebrosos documentos já escritos, o “Malleus Maleficarum” (Martelo das Feiticeiras), no qual apresentaram justificativas teológicas e “oficializaram” as superstições da época que provocavam a perseguição às supostas bruxas, e que logo tornou-se o manual dos que se dedicavam a essa tarefa. A importância histórica desta bula é que através dela a Igreja reconheceu a existência das bruxas e da bruxaria e deste modo autorizou as perseguições que se seguiram, não só na Alemanha, mas em todos os outros países em que tinha influência.

A bula foi julgada necessária devido à resistência de autoridades eclesiásticas e civis em apoiar o “trabalho” dos dois fanáticos inquisidores no Sul da Alemanha, o que transparece perfeitamente no texto. Aliás, ela serve de introdução ao Malleus Maleficarum.

Eis a bula :

Inocêncio, Bispo, Servo dos servos de Deus, para a lembrança eterna.

Desejando, na mais sincera apreensão, como bem requer o Nosso Apostolado, que a Fé Católica, mormente em Nossos dias, cresça e floresça por todas as partes, e que toda a depravação herética seja varrida de todas as fronteiras e de todos os recantos dos Fiéis, é com enorme satisfação que proclamamos e inclusive reafirmamos os meios e métodos particulares pelos quais Nosso desejo piedoso poderá surtir os efeitos almejados, já que quando todos os erros forem erradicados pela Nossa dissuasão diligente, como pela enxada do agricultor previdente, um maior zelo e uma observância mais regular de Nossa Santa Fé venham a ficar mais firmemente impressos no coração dos fiéis.

De fato, chegou-nos recentemente aos ouvidos, não sem que nos afligíssemos na mais profunda amargura, que em certas regiões da Alemanha do Norte, e também nas províncias, nas aldeias, nos territórios e nas dioceses de Mainz, de Colônia, de Trèves, de Salzburg e de Bremen, muitas pessoas de ambos os sexos, a negligenciar a própria salvação e a desgarrarem-se da Fé Católica, entregaram-se a demônios, a Íncubos e a Súcubos, e pelos seus encantamentos, pelos seus malefícios e pelas suas conjurações, e por outros encantos e feitiços amaldiçoados e por outras também amaldiçoadas monstruosidades e ofensas hórridas, têm assassinado crianças ainda no útero da mãe, além de novilhos, e têm arruinado os produtos da terra, as uvas das vinhas, os frutos das árvores, e mais ainda : têm destruído homens, mulheres, bestas de carga, rebanhos, animais de outras espécies, parreirais, pomares, prados, pastos, trigo e muitos outros cereais; estas pessoas miseráveis ainda afligem e atormentam homens e mulheres, animais de carga, rebanhos inteiros e muitos outros com dores terríveis e lastimáveis e com doenças atrozes, quer internas, quer externas; e impedem os homens de realizarem o ato sexual e as mulheres de conceberem, de tal forma que os maridos não vêm a conhecer as esposas e as esposas não vêm a conhecer os maridos; porém, acima de tudo isso, renunciam de forma blasfema à Fé que lhes pertence pelo Sacramento do Batismo, e por instigação do Inimigo da Humanidade não se escusam de cometer e de perpetrar as mais sórdidas abominações e os excessos mais asquerosos para o mortal perigo de suas próprias almas, pelo que ultrajam a Majestade Divina e são causa de escândalo e de perigo para muitos.

E não obstante Nossos queridos filhos Henry Kramer e James Sprenger, Professores de Teologia, da Ordem dos Monges Dominicanos, tenham sido por Cartas Apostólicas delegados como Inquisidores de tais depravações heréticas, e ainda sejam Inquisidores, o primeiro nas regiões da Alemanha do Norte, onde se incluem as mencionadas aldeias, os distritos, as dioceses e outras localidades especificadas, e o segundo em certos territórios que ficam às margens do Reno, não poucos clérigos e leigos das regiões citadas, procurando curiosamente saber mais do que lhes compete – já que as cartas mencionadas não citam nem fazem menção específica de tais províncias, aldeias, dioceses e distritos, e já que os dois delegados e as abominações que devem combater não foram mencionados de forma pormenorizada e particular – não se acanham em afirmar, na mais despudorada desfaçatez, que tais monstruosidades não são praticadas naquelas regiões, e que, conseqüentemente, os supracitados Inquisidores não têm o direito legal de exercerem os poderes da Inquisição nas províncias, nas aldeias, nas dioceses e nos distritos enumerados, e também que os Inquisidores não podem proceder com a punição, com a prisão e com a penalização dos criminosos culpados das ofensas hediondas e das muitas perversidades que já se acham esclarecidas. Por conseguinte, nas supracitadas províncias, aldeias, dioceses e territórios, as abominações e atrocidades em questão permanecem sem punição, e não sem grave perigo para as almas de muitos e não sem o perigo da danação eterna.

Pelo que Nós, no cumprimento de Nossas obrigações, mostrando-Nos absolutamente desejosos de remover todos os empecilhos e obstáculos que tornam morosa e difícil a boa obra dos Inquisidores, e também desejosos de aplicar remédios potentes para prevenir a doença da heresia e de outras torpezas que difundem o seu veneno para a destruição de muitas almas inocentes, já que Nosso zelo pela Fé é o que Nos incita especialmente, para que as províncias, as aldeias, as dioceses e os distritos e territórios da Alemanha, que já especificamos, não se vejam privados dos benefícios do Santo Ofício para esse fim firmado, pelo teor das presentes letras, em virtude de Nossa autoridade Apostólica, decretamos e estabelecemos que os mencionados Inquisidores têm o poder de proceder, para a justa correção, aprisionamento e punição de quaisquer pessoas, sem qualquer impedimento, de todas as formas cabíveis, como se as províncias, as aldeias, as dioceses, os distritos e territórios, e ademais, como se inclusive as pessoas e os crimes dessa espécie, tivessem sido indicados e especificamente mencionados em Nossas cartas.

Além disso, para maior segurança, determinamos que o poder conferido por tais Cartas se estendem a todas as mencionadas províncias, dioceses, aldeias, distritos e territórios, a todas as pessoas e a todos os crimes acima indicados, e damos permissão aos supracitados Inquisidores, a um separadamente ou a ambos, como também a Nosso filho John Gremper, pároco da Diocese de Constance, Mestre em Ciências Humanas, a seu notário, ou a qualquer outro notário público, que esteja com eles, ou com um deles, temporariamente designado para aquelas províncias, aldeias, dioceses, distritos e os supracitados territórios, para proceder conforme as normas da Inquisição contra quaisquer pessoas de qualquer classe ou condição social, corrigindo-as, multando-as, prendendo-as, punindo-as, na proporção de seus crimes – e aos que forem considerados culpados que a pena seja proporcional à ofensa.

Além disso, gozarão da plena faculdade de expor e de pregar a palavra de Deus aos fiéis, tanto quanto for oportuno e quanto lhes aprouver, em cada uma das paróquias de tais províncias, e haverão de livre e licitamente realizar quaisquer ritos ou executar quaisquer atos que possam lhes parecer recomendáveis nos casos mencionados. Pela Nossa autoridade suprema, conferimos-lhes poderes plenos e irrestritos.

Ao mesmo tempo, pelas Cartas Apostólicas, solicitamos ao nosso venerável Irmão, o Bispo de Strasburg, que ele próprio anuncie, ou através de outra ou de outras pessoas faça anunciar, os termos de Nossa Bula. Que há de publicar de forma solene quando e sempre que julgar necessário, ou quando assim for solicitado a proceder pelos Inquisidores ou por um deles. Nem haverá ele de padecer em desobediência ao teor da presente por ser molestado ou impedido por qualquer autoridade que seja : haverá de ameaçar a todos os que vierem a dificultar ou impedir a ação dos Inquisidores, a todos os que se lhes opuserem, a todos os rebeldes, de qualquer categoria, estado, posição, proeminência, dignidade ou qualquer condição que seja – não importando o privilégio de que disponha – haverá de ameaçá-los com a excomunhão, a suspensão, a interdição, e inclusive com as mais terríveis penas, as piores censuras e os piores castigos, como bem lhe aprouver, e sem qualquer direito de apelação, e se assim o desejar poderá, pela autoridade que lhe concedemos, agravar e renovar tais penas quantas vezes for necessário, recorrendo, se assim convier, ao auxílio do braço secular.

Non obstantibus... Que ninguém portanto... Mas se alguém assim ousar agir – que Deus o proíba -, saiba que sobre si recairá a ira de Deus Todo-Poderoso, e a dos Bem-Aventurados Apóstolos Pedro e Paulo. Roma, Basílica de S. Pedro, 9 de dezembro do Ano da Encarnação de Nosso Senhor de 1484, no primeiro Ano de Nosso Pontificado.

Fonte: http://misteriosdomundo.com/
http://www.conhecimentohoje.com.br

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