17 de jul de 2019

Roma imperial: As mulheres, o casamento e o poder - 1

     

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Por Pierre Grimal - No fim da República romana, o casamento tinha-se transformado em um instrumento político: o poder, que algumas famílias partilhavam entre si, ciosas dos seus privilégios e ...
fortemente decididas a protegê-los contra os intrusos, pertencia àqueles a quem o nascimento ou as alianças das suas gens destinavam às magistraturas.
Aliás, as uniões eram reali­zadas apenas com conhecimento de causa e os caprichos do coração não eram de modo nenhum tidos em conta. Por estas mesmas razões, não hesitavam no divórcio quando os interesses o exigiam.  No entanto, en­volvendo uma contradição de graves consequências, não se deixava de considerar que estes mesmos casamentos, tão frágeis, eram essenciais à sobrevivência de uma sociedade que não chegava a esquecer totalmente as suas origens patriarcais. Uma das primeiras preocupações de Augusto quando começou a reorganizar o Estado foi forçar os principais cida­dãos a assumir este dever, de que pretendiam dispensar-se1. Durante o Império, os senadores foram obrigados, a bem ou a mal, a tomar mulher - não uma esposa qualquer, mas uma mulher com o seu estatuto, a fim de ser mantida esta aristocracia que César tinha, de fato, enfraquecido, mas à qual Augusto e os seus sucessores se propunham confiar uma parte das responsabilidades tradicionais.

No entanto, o casamento era insuficiente só por si para garantir a intimidade dos cônjuges. Muitos foram, decerto, os homens e as mulhe­res que procuraram fora do casal a felicidade ou o prazer que nele não encontravam. Sêneca podia escrever à mãe: “O maior mal deste século, a imoralidade, não te levou a juntares-te à maioria”2. Parece realmente que, a acreditarmos nos autores romanos, entre os quais sobressai a voz de Juvenal, muitas esposas não foram fiéis ao seu juramento. Por seu lado, como sabemos, os maridos podiam exibir sem escândalo ligações que não os desonravam. Apesar de tudo, o casamento em si mesmo con­tinuava a ser uma instituição a que até os mais dissolutos prestavam homenagem. Era no casamento, fosse ou não respeitado, que se afirma­va o orgulho de uma casta: à medida que as mulheres conquistavam uma maior liberdade, tornavam-se conscientes do seu papel na cidade. As melhores delas aspiravam a compartilhar plenamente as preocupações do marido, a mostrarem-se dignas dos seus antepassados e, mais em geral, do nome romano. O amor ganhava, então, para elas, um outro aspecto. Já não era, como nos tempos antigos, obediência, respeito, apagamento, mas tornava-se estima, devoção, por vezes, camaradagem, ou mesmo cumplicidade. A perspectiva da vida conjugal transformava-se: as relações carnais e a procriação perdiam a sua tirânica importância e, em seu lugar, nascia a amizade.
  
Nesta evolução, é possível detectar a influência da filosofia grega. Já nos parecera que a aventura de Catão e Márcia evidenciava uma atitude comandada por imperativos e até por paradoxos estoicos, pois quer Crisipo quer Zenão advogaram, por vezes, a comunidade das mulheres3, pelo menos entre os sábios. Catão, na verdade, é o único homem do seu tempo a ter levado os princípios da seita até ao sublime e ao absurdo, mas houve à sua volta, bem como nas gerações que se seguiram, muitos espíritos seduzidos pelo pensamento estoico e cuja conduta nele se ins­pirou. Se é verdade que o estoicismo em muito contribuiu para formar a doutrina do Império, é certo também que dominou as almas e tanto mais quanto há longo tempo estavam preparadas para ouvir os seus ensinamentos. Durante todo o Império, os nobres romanos foram, na sua grande maioria, estoicos ou, pelo menos, iniciados nos princípios da moral estoica.
 
Ora, enquanto os epicuristas consideravam o amor como a satisfação de um mero prazer carnal, os estoicos atribuíam-lhe um lugar de eleição na vida interior. Independentemente da sua desconfiança em re­lação a todas as paixões, não se resignavam a condenar esta, de que diziam ser “uma tentativa para criar a amizade graças à beleza”4. Cícero, que retoma a fórmula, sublinha com justiça o seu carácter platônico5. Naturalmente, a beleza que desperta o amor é, por princípio, a beleza moral, a da alma, mas esta beleza ideal transparece na beleza do corpo, que se torna, de algum modo, mediadora entre o amante e amado. Em teoria, há uma grande distância entre esta “amizade” filosófica e o amor carnal e, na prática, os filósofos desviavam os seus discípulos dos ata­lhos demasiado fáceis e demasiado tentadores. A perfeição do amor “estóico” não pode ser realizada senão na alma do sábio. Só este é capaz de suplantar os perigos que o sentimento amoroso envolve. Crisipo e os seus sucessores estavam bem conscientes das dificuldades que uma alma insuficientemente firme encontraria para distinguir o amor verdadeiro da sua caricatura carnal. Não se consideravam, no entanto, no direito de formular uma condenação de princípio contra uma forma de relação hu­mana que lhes parecia ser a única capaz de realizar plenamente a com­ preensão e a comunhão das consciências.

Quando falavam do amor, os primeiros estoicos, como também o próprio Platão, pensavam sobretudo nas relações do sábio com os seus discípulos, nos “amores filosóficos”, cujo objeto eram os jovens. Mas logo a sua doutrina foi aplicada aos amores mais normais, vindo a defi­nir, de maneira muito geral, um “uso filosófico” do sentimento amoroso. Era costume citar a propósito um estoico chamado Trasônides, que res­peitara a jovem que amava e que tinha em seu poder, com receio de fazer nascer nela um sentimento de aversão6.

Um amor baseado na estima e na participação nos mesmos valores morais, tal era o ideal que o estoicismo propunha aos seus adeptos roma­nos. Em uma sociedade onde a mulher gostava de afirmar a sua indepen­dência, o amor “estoico" oferecia-lhe a possibilidade de realizar plena­mente esta liberdade, salvaguardando ao mesmo tempo as exigências do seu coração. Por isso, não surpreende que os meios estoicos, durante o Império, nos facultem vários exemplos de mulheres que praticaram esta moral.

A mais célebre dentre elas é, sem dúvida, Arria, mulher de Cecina Peto. Plínio, Em uma carta que lhe dedicou integralmente, preservou al­guns traços heróicos de que a sua família guardava devotadamente a lembrança7. Durante uma doença que atingira o marido e o filho, este último acabou por falecer. Arria fez por esconder a verdade a Peto. En­carregou-se ela mesma do funeral, resolveu tudo e, quando estava na presença do marido, fingia que o seu filho ainda estava vivo. E mais, diz Plínio, inventava mil detalhes consoladores: “Dormiu bem - dizia ela -, comeu com bastante apetite.” Depois, saía do quarto e dava livre curso às suas lágrimas e só reentrava depois de ter os olhos secos e o rosto sereno, como se, diz ainda Plínio, “tivesse deixado o seu luto à porta”. Só revelou a verdade ao marido quando este ficou suficientemente forte para a suportar.

Cecina Peto tinha participado, na Ilíria, em uma revolta contra Cláudio e foi preso após o malogro dos insurrectos. Quando os soldados o em­barcavam em um navio para o conduzir a Roma. Arria suplicou aos guardas que a levassem com eles. “Vejamos - dizia-lhes ela vão ter que destinar ao cônsul alguns escravos para o alimentar, vestir e calçar. To­dos estes serviços, seria apenas eu a prestá-los.” Os soldados afastaram-na. Então, alugou um barco de pesca e, nesta frágil embarcação, seguiu o navio. Durante o processo, deu provas da mesma alma indomável. Como Víbia, a mulher de Escriboniano, o principal instigador da revol­ta, aceitava fazer revelações na sua presença, Arria gritou-lhe: “Que oiço eu? Escriboniano foi morto nos teus braços e tu estás viva?” Quando o marido foi condenado, foi a primeira a agarrar o punhal, espetou-o no peito e, em seguida, retirando a arma ensanguentada, estendeu-lha di­zendo: “Peto, não é doloroso!”

Os seus filhos, no decurso do processo, tinham querido dissuadi-la de morrer. Ao seu genro, Trásea, que lhe perguntara: “Quererias, portan­to, que a tua filha morresse comigo, se eu tivesse de morrer?”, respon­deu: “Sim, se ela tivesse vivido contigo tanto tempo e em uma concórdia tão total como Peto viveu comigo.” Contudo, Arria teria podido viver feliz muitos anos. Era íntima amiga de Messalina e ninguém teria pensa­ do em incomodá-la, se não tivesse procurado ela mesma a morte8.

Seria ofender estas mulheres explicar a sua conduta por um acesso de paixão. Elas não são levadas pelo desespero, mas pelo sentimento da honra: seria desonroso para elas, inhonestum, sobreviver ao naufrágio daquilo que fora toda a sua vida. Colocam acima de qualquer outro valor esta “fidelidade” a um compromisso que livremente celebraram e que nem sequer a morte do seu companheiro poderá dissolver. A sua atitude, por um lado, está próxima da das matronas de outrora, cuja honra obri­gava a permanecer univirae, a não contrair um segundo casamento, se o seu primeiro marido viesse a desaparecer, e, por outro lado, é totalmente diferente dela quanto ao espírito: sacrificando o resto da sua vida, não obedecem à opinião comum, aos imperativos de uma moral que é sobre­tudo negativa, mas têm a consciência de realizar elas mesmas uma esco­lha livre. A amizade que as une ao marido leva-as a compartilhar, total e espontaneamente, um ideal que não poderiam negar em face da morte. Este é, sem dúvida, o sentido da palavra “concórdia”, com que Arria explicava ao genro a sua vontade de morrer. Não pensava certamente no acordo burguês que poupa aos cônjuges as pequenas contrariedades da vida quotidiana, mas, pelo contrário, na identidade de espírito que é a própria definição da amizade estoica.

Acontece que o maior filósofo deste tempo, o estoico Sêneca, também teve a experiência de um tal amor, pelo menos na última fase da sua vida. Tendo casado, depois de regressar do exílio, com uma mulher muito jovem, Paulina, quando ele mesmo já tinha atingido os cinquenta anos, viveu em uma grande intimidade com ela. Paulina velava cuidadosamente pela sua saúde, que foi sempre delicada, e Sêneca até se lamentava de ser amado com demasiada complacência. Todavia, acrescentava: “Como não posso fazer com que ela me ame com menos indulgência, é ela que faz com que eu me ame com maior atenção.”9 São afirmações suspeitas, dir-se-á, e ditadas pela vaidade de um velho que o amor de uma jovem lisonjeia. No entanto, alguns meses mais tarde, um acontecimento iria provar de maneira dramática a sua verdade.

Foi Tácito que nos relatou os últimos momentos de Sêneca. Implica­do na conspiração de Pisão e já totalmente caído em desgraça, Sêneca recebe de Nero a ordem de se matar. Então, Paulina declara que não lhe sobreviverá de modo nenhum e pede “uma mão que a fira”. Ao ouvir isto, Sêneca, para não se opor à sua glória e, para além disso, motivado pelo afeto, para não a deixar sem defesa perante a injustiça, disse-lhe - a ela que ele amara com tanta ternura:

“Mostrei-te o que podia tornar doce a tua vida, mas preferes a honra de morrer. Não recusarei de modo nenhum o direito de te tomares um exem­plo. Ainda que a nossa morte revele neste momento que a coragem de ambos tem igual firmeza, será o teu fim o mais sublime”.

Após estas palavras, com um mesmo golpe, abrem as veias dos bra­ços. Sêneca, cujo o corpo estava velho e emagrecido por um regime ascético, só lentamente deixava escoar o sangue, pelo que abre igual­ mente as veias das pernas e dos jarretes. Então, esgotado por dores vio­lentas, temendo que o seu próprio sofrimento abalasse a vontade da sua mulher e que o espectáculo do suplício dela o enfraquecesse a si mesmo a ponto de não lhe permitir suportá-lo mais, persuade-a a que se retire para outra sala.

Mas Nero, que não tinha em relação a Paulina nenhuma animosidade pessoal e também desejando evitar chocar a opinião pública, passan­do por cruel, ordena que tragam a jovem de volta à vida. Por ordem dos soldados, os escravos e os libertos fazem um ligadura nos braços e estan­cam a hemorragia sem que se saiba se a paciente tem consciência do que lhe estão a fazer. Como a multidão está sempre pronta a dar uma inter­pretação maldosa, não foram poucas as pessoas que julgaram que, en­quanto temera enfrentar um Nero implacável, quisera obter a glória de morrer com o seu marido, mas, depois, quando lhe surgiu uma esperan­ça mais favorável, rendeu-se à atração pela vida10.

O estoicismo gostava de reconhecer às mulheres a possibilidade de atingir a “virtude” e pensava mesmo que isso era nelas um mérito maior do que nos homens, porque tinham de superar uma natureza mais domi­nada pela paixão e pelo instinto. Em um tratado sobre o casamento, de que só nos restam uns fragmentos mínimos, Sêneca afirmava que a primeira virtude de uma mulher era a sua pureza, virtude cardeal cuja perda arrui­nava todas as outras. Dava para isso várias razões, pertencendo algumas à moral tradicional (garantir a genuinidade da sua descendência e conti­nuar digna dos seus antepassados e da sua gens), mas uma delas, pelo menos, a que era mais importante, exprime o imperativo absoluto da seita: o respeito por si mesma, o cuidado pela sua própria liberdade. Uma mulher que não respeite a sua honra torna-se escrava da paixão do seu amante, já não é livre.

Foi o respeito pela sua honra, escreve Sêneca, que elevou Lucrécia ao mesmo plano que Brutus e talvez a tenha colocado acima dele, porque foi com uma mulher que Brutus aprendeu que não podia ser escravo.11

Mas não era apenas o carácter ilegítimo do amor adúltero que o tor­nava imoral. Há casamentos, diz ainda Sêneca, que são verdadeiros adul­térios: “É ser adúltero para com a sua própria mulher amá-la com um amor demasiado ardente.” A fórmula é retirada de um dos seus mestres, o estoico Sêxtio, e Sêneca retoma-a por sua conta, acrescentando: “O sábio deve amar a sua mulher por um ato de vontade deliberada, e não por um impulso de paixão”12.

Esta teoria coerente do casamento estoico, elaborada pelos moralis­tas na própria Roma. redescobre, justificando-os, os velhos preceitos da tradição ancestral: agora como antes, deparamos com a mesma descon­fiança em relação à paixão e às forças cegas do instinto, com o mesmo ideal de castidade para os dois cônjuges. Mas os filósofos acrescentam uma nova exigência: é necessário que também o marido respeite a sua mulher e lhe seja fiel. Apenas assim será realizada aquela “amizade” que eleva o casamento acima das preocupações vulgares e lhe confere o seu verdadeiro valor. Que esta concepção do casamento não tenha sido pura teoria, mas que se tenha realizado pelo menos em alguns casais de elite, é o que os exemplos que citamos, aqueles que podemos apresentar, nos obrigam a acreditar. Por si só, a espiritualidade ancestral eleva-se a um ideal que anuncia, por certo, o do casamento cristão, mas permanece fiel à antiga moral, pelo menos na forma, com a diferença de que aquilo que era até então uma simples norma de conduta se tornar agora em uma atitude espiritual que encontra a sua justificação e a sua recompensa em si mesma.

Uma vez aceita esta exigência moral, compreenderemos melhor as críticas, por vezes muito acerbas, que Sêneca dirige às mulheres do seu tempo, quando as acusa de “contar os seus anos, não pelos cônsules, mas segundo os sucessivos maridos”13. Não é mais condescendente com os homens que se deixam arrastar por outras paixões igualmente perigosas para o seu aperfeiçoamento interior: a cupidez, a ambição e o gosto do luxo. Todos estes arrebatamentos são igualmente culpados, mas, para uma mulher, as faltas contra a castidade são o principal perigo. A pri­meira condição da “vida feliz” deve ser, para ela, aprender a dominar o que temos de designar como a maldição feminina, este apelo dos senti­dos que a encontra geralmente sem defesa. Não falemos aqui de “des­prezo” em relação à mulher14. Sêneca não despreza Márcia, nem Hélvia, nem Paulina, mas sabe que o ideal que lhes propõe é elevado, difícil de atingir e que necessitarão de uma força de alma pouco comum para su­perar nelas o irracional e, ultrapassando o amor, chegar ao mais alto da amizade.

Ao mesmo tempo que a aristocracia estoica elaborava assim, com a ajuda dos filósofos, uma moral do amor legítimo singularmente elevada e “moderna” nas suas ressonâncias, outras tendências viam a luz do dia, reforçadas pelas novas condições que o advento do poder monárquico criava. Do mesmo modo que o conjunto da civilização romana, a histó­ria do sentimento amoroso revela influências simultâneas e contraditóri­as, procedendo umas da mais autêntica tradição nacional e outras de um Oriente onde o helenismo realizou uma síntese de morais e místicas he­terogêneas. Em Roma, estas influências ombreiam umas com as outras. Talvez nos surpreenda saber que uma mulher como Arria foi amiga e parente de Messalina. Todavia, é necessário pôr de parte as nossas indig­nações virtuosas e renunciar a aplicar, sem os devidos matizes, juízos tradicionais, mas anacrônicos. Por fim, a moral do Ocidente “inclinou-se” para o lado de Arria. Mas é necessário admitir, no entanto, que esta escolha só se pôde efetuar porque existia outra coisa pela qual se podia optar.
 
Ouvindo os poetas, nomeadamente Propércio, pareceu-nos que o amor carnal nem sempre foi objeto de uma condenação implícita, mas pôde ser considerado como uma exaltação quase divina do ser, ou mesmo um mediador entre o humano e sobre-humano. No próprio pensamento reli­gioso romano existiu esta tendência, apesar dos esforços do “puritanismo” senatorial para o mascarar e para lhe reduzir as consequências15. Era natural que, após a derrota do Senado no campo de batalha de Farsália, se produzisse uma violenta reação e que alguns romanos acreditassem que chegara o momento de reabilitar formas de vida que a moral tradi­cional reprovava, reação tanto mais compreensível por ocorrer depois das angústias da guerra civil e que às grandes tensões nacionais sempre se seguiu um abrandamento geral dos costumes.
 
O herói desta moral (ou, se se preferir, desta imoralidade) nova foi Marco Antônio. Foi conduzido a ela pelo seu temperamento, que predis­punha a todos os excessos, e também por uma tradição familiar que pre­tendia que a gens Antônia descendia de Hércules, o Hércules das proe­zas heroicas e grandiosas, “monstro sagrado” que escapa às normas da moral vulgar, capaz de estrangular um leão com as suas mãos e de dar, em uma noite, cinquenta filhos às filhas de Téspio. Plutarco conta-nos como, na sua maneira de vestir, no seu modo de andar, Antônio se esforçou sempre por imitar Hércules16. Enquanto César lutava ainda na Espanha para aniquilar os últimos restos do partido senatorial, Antônio percorria a Itália com mimos e dançarinas17, parando à beira das estradas para dar banquetes em que bebia mais do que era razoável e que degeneravam em orgias. Durante algum tempo, a influência de Fúlvia e talvez também as repreensões de César colocaram um travão a este exaltado desejo de gozo, que chocava profundamente a opinião pública, pelo menos a dos aristocratas, porque parece que a plebe se apaixonou por ele como sendo um herói.

Era difícil, em uma Itália instintivamente “burguesa”, dar à sua própria personagem dimensões míticas. César, que o tentava de modo mais sutil do que Antônio, não o conseguiu, tendo pago o seu fracasso com a vida. Mas este permanecia no Oriente e é aí que o Heraclida vai tentar viver o seu próprio mito.

Na partilha do mundo que se seguiu ao fim do segundo triunvirato, Antônio obteve o Oriente e com uma facilidade tanto maior quanto Otávio ficava bastante satisfeito por afastar este aliado incerto de uma Itália onde, realmente, se disputava o futuro do mundo. A partir de 41, eis Antônio na Ásia Menor. Apresenta-se não como Hércules, como se­ ria de esperar, mas como Dioniso. Com efeito, expressas na mística des­te tempo, são várias as analogias entre Hércules e o deus das Ménades18: ambos são heróis triunfantes, desceram aos Infernos e penetraram nos segredos do além. Por outro lado, sabemos que os Ptolomeus atribuíram a si mesmos uma dupla ascendência que os relacionava com os dois. Estamos em um tempo em que os velhos mitos são objeto de uma exegese que umas vezes é sutil e outras complacente, prestando-se a todas as políticas. Ora, os reinos de Oriente tinham visto nascer e desenvolver-se confrarias de admiradores de Dioniso, que exerciam um grande poder sobre os espíritos. Estas confrarias recrutavam os seus elementos sobre­ tudo entre os “dionisiastas” - músicos, cantores, dançarinos -, cujo ofí­cio era precisamente colaborar, nas cidades, nas festas do deus. Logo que chega à Ásia Menor, vemos Antônio rodeado de artistas desta espé­cie, impondo-se junto dele, o que indigna fortemente Plutarco19: Quan­do fez a sua entrada em Éfeso, foi como um triunfador dionisíaco. Mu­lheres disfarçadas de bacantes, homens e jovens vestidos de sátiros e deuses Pã precediam o seu cortejo. A cidade estava cheia de hera e tirsos, liras, siringes e flautas, enquanto o povo o aclamava, chamando-lhe Dioniso, o benevolente, e Dioniso, o jubiloso20.

Por trás desta aparente loucura ocultava-se uma intenção política. Pretendia atrair a si a simpatia popular e nada podia servir melhor as intenções de Antônio do que o apoio dos sectários do deus que pretendia encarnar. Herdeiro dos projetos de César, Antônio esperava empreen­der uma expedição à índia, para além do reino dos Partos. Quem não se recordava do triunfal passeio “militar” até às margens Ganges de que Dioniso fora o herói? Em Roma, tudo isto seria uma loucura, uma mas­carada sem dignidade. Em Éfeso, ao som de flautas e tamborins, era talvez sabedoria.

Este foi o momento escolhido por Cleópatra para se apresentar ao futuro conquistador do mundo. Durante a guerra contra os assassinos de César, Cleópatra tinha apoiado o partido de Cássio, e Antônio, após a sua vitória, pretendia pedir-lhe contas. Enviou-lhe um mensageiro ordenando-lhe que se apresentasse na Cilicia para apresentar desculpas, se o pudesse fazer. Cleópatra, que conhecia bem Antônio, por tê-lo encontra­do em Roma - talvez por já ter sido aí sua amante21-, decidiu ir a Tarso e ter com ele uma conversa decisiva. Estava informada pelos seus agen­tes sobre a sua conduta desde a chegada à Ásia. Sabia quais eram as suas esperanças e os meios que usava e julgou que podia batê-lo no seu pró­prio terreno. Quando subiu o Cidno, fê-lo em uma embarcação real de popa dourada e com velas de púrpura. Os ramos estavam incrustados de di­nheiro. O ritmo era marcado aos remadores por flautas acompanhadas de liras e siringes. Ela mesma permanecia sob um dossel bordado a ouro, semelhante à deusa Afrodite, enquanto alguns Amores, como se via nas pinturas, estavam de pé, de ambos os lados da sua cama, refrescando-a com os seus leques. Dispersas entre a tripulação, servas jovens e belas representavam as Graças e as Nereides. Defumadores espalhavam os seus fumos aromáticos pelas margens22. A multidão acorreu de todo lado para gozar o espectáculo, pelo que, em pouco tempo, Antônio ficou só, no seu tribunal, no meio da ágora! Por toda a parte se espalhou o rumor de que a deusa Afrodite em pessoa viera alegrar-se com Dioniso para bene­fício da Ásia.

Nessa mesma noite, no rio, houve uma festa extraordinária. Antônio, esquecendo que era ele o senhor e que a rainha vinha por sua ordem, aceitou a hospitalidade de Cleópatra na seu galera divina. Nesse mo­mento, começou uma aventura “inimitável” (foi essa a designação que os dois amantes deram à vida que levaram a partir daí) entre o novo Dioniso e a nova ísis. Voltaram ambos para Alexandria e, enquanto Fúlvia desencadeava a guerra civil na Itália, o marido entregava-se a mil facécias indignas de um romano, mas que encantavam a populaça egíp­cia. Ele e Cleópatra, à noite, corriam disfarçados pelas ruas, molestando os transeuntes, que lhes retribuíam as ofensas e, por vezes, lhes ganha­vam. No resto do tempo, Cleópatra jogava aos dados ou bebia com ele, caçava ou olhava-o a fazer armas. Foi uma época magnífica. Cleópatra sabia maravilhosamente importuná-lo e adulá-lo, ao mesmo tempo. Antônio fora um dia à pesca e a sorte não o estava a favorecer nada, deixando-o extremamente irritado, porque, como Cleópatra estava pre­sente, sentia-se humilhado. Pediu então, secretamente, a alguns pesca­dores que lá se encontravam para mergulharem e prenderem na sua linha peixes que já tinham. Antônio pensava ter salvo a sua honra e Cleópatra, aparentando acreditar, não lhe regateou elogios. Mas, para consigo, pen­sava na vingança. Organizou para o dia seguinte outra pescaria para a qual convidou um grande número de cortesãos. Depois, chegando antes de Antônio, encarregou um nadador de prender à linha deste um arenque salgado. Quando Antônio levantou a linha, todos se puseram a rir e Cleópatra gritou-lhe: “Imperator, deixa-nos a nós, gente de Faros e de Canopo, a preocupação com a pesca. A tua caça são as cidades, os reinos e os continentes”21.
 
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Enganar-nos-íamos, no entanto, se acreditássemos que Antônio estava completamente subjugado pela rainha. Não se tinha tomado, nas suas mãos, o instrumento dócil com que ela sonhava. Quando as notícias da Itália tornaram conhecidas as dificuldades em que Fúlvia o compro­metera sem o seu conhecimento, não hesitou em abandonar Alexandria e regressar à Grécia, indo depois a Brindes, onde acordou a paz com Otávio. Como a situação exigia um acordo duradouro e Fúlvia morrera entretanto, aceitou realizar um novo casamento, desta vez com Otávia, a irmã de Otávio. Provavelmente, não sentia realmente que era o “mari­do” da rainha: não era para ele senão uma concubina e apenas um pouco mais do que uma cortesã. Talvez a considerasse mesmo um instrumento para conseguir a anexação total do Oriente: afinal, os reis do Egito eram frequentemente feitos por casamento com a soberana do país. Con­tudo, de momento, era necessário esperar. O sonho de ser o soberano do Oriente não estava abandonado. Para realizá-lo, convinha, em primeiro lugar, ter as mãos livres na Itália, garantia que obteve com o casamento com Otávia. Durante três anos, sem mais se preocupar com Cleópatra, Antônio vai ser para a sua nova mulher um marido fiel. Mesmo quando tem de ir à Síria para chefiar as operações contra os Partas, na Primavera de 38, não aproveita a ocasião para se reencontrar com a rainha. Como é evidente, o seu amor por ela e a recordação do Inverno maravilhoso e da vida inimitável não ocupam de modo nenhum o seu espírito, o que não deixa de embaraçar um tanto os historiadores que querem explicar toda a história desta época com os encantos de Cleópatra.

Há outros autores que, pelo contrário, reduzem o papel desempenhado pela rainha e asseguram que a política de Antônio a seu respeito, as concessões de territórios que lhe fez, não excedem, de maneira ne­nhuma, os limites das honras concedidas a reis vassalos que se desejava vincular à causa de Roma. Antônio não ignorava que estas transferên­cias de soberania não podiam ser senão temporárias e que mais cedo ou mais tarde Roma recuperaria as suas províncias. Além disso, os mesmos historiadores fazem notar, de acordo com testemunhos antigos, que Cleópatra, nesta altura, já não seria muito jovem e que Otávia era infi­nitamente mais sedutora do que ela. De fato, a questão não é talvez assim tão simples nem se situa apenas no plano da paixão. Otávia e Cleópatra simbolizam duas “tentações” de Antônio, tentações políticas ainda mais do que carnais, duas vias entre as quais era necessário esco­lher. Ora, se nos recordarmos de Pródico, é aplicar uma moral algo limi­tada pensar, que, destas duas vias, uma era a da virtude e outra a da indolência. Do lado de Otávia, estava Roma, com a tradição dos casa­mentos políticos e das alianças sabiamente doseadas, e a partilha do po­der com Otávio, uma partilha que, como Antônio bem sabe, só podia ser provisória. Do outro lado, estava Cleópatra, cujo apoio podia trans­formar o general romano em um soberano helenístico, velha tentação a que os imperatores que tinham tido a experiência do Oriente vinham resis­tindo com cada vez maior dificuldade. Junto da rainha, já mais de metade do caminho fora percorrido: em 40, nasceram os dois gêmeos que são fruto dos seus amores, Alexandre-Hélio e Cleópatra-Selênia, cujos no­mes astrais (o Sol e a Lua) dizem bem em que ambiente religioso eram educados. Antônio, em 37, encontrava-se realmente em uma encruzilhada. É necessário confessar, de fato, que a situação política na Itália, onde Otávio se esforçava, notoriamente, por eliminar os seus colegas do triunvirato, associados e cúmplices nos dias difíceis e agora rivais odia­dos, não o encorajava a permanecer inativo. A única possibilidade de Marco Antônio residia em uma vitória total no Oriente, no sucesso de uma aventura grandiosa que reduzisse a nada os cálculos ardilosos de Otávio. Ora, este prestígio acrescido, de que tinha uma tão grande necessidade e na ausência do qual seria infalivelmente eliminado da cena política, só o estreitamento da aliança com Cleópatra poderia dar-lhe.

Cleópatra, por seu lado, também não estava inativa, e não era apenas, nem sobretudo, o amor que podia sentir em relação a Antônio que a motivava. Durante a ausência de Antônio, envolve-se em inúmeras intri­gas no Oriente. O seu objetivo é evidente: recuperar o “Grande Egito”, que englobava, anteriormente, sob a coroa dos Ptolomeus, uma par­te da Síria. Para o atingir, tem necessidade de se sentir segura perante Roma. O seu jogo consiste, em primeiro lugar, em manter o melhor que pode a divisão deste império, que, no tempo César, fracassou em devorar o seu reino, mas, melhor ainda, não perde a esperança de, graças a Antônio, fazer com que a potência romana sirva os seus desígnios. Nesta diplomacia, o amor é apenas um elemento, um meio entre outros, não é tudo. A propaganda otaviana popularizou a figura, tomada lendária, de um Antônio escravo dos sentidos e traidor da pátria, por complacência com a rainha, ou seja, um novo Hércules fiando aos pés de Ônfale. Era um excelente pretexto para justificar a ruptura definitiva com o senhor do Oriente, à volta do qual se reunia cada vez mais a oposição “republi­cana” que renascia. A propaganda otaviana não era decerto verdadeira, pelo menos, não era toda a verdade.

Após o encontro de Tarento, na Primavera de 37, entre Otávio e Antônio, este regressou ao Oriente: a sua escolha estava feita. Retorna­va, após um interregno de três anos, os seus projetos de guerra contra o reino parto e a sua primeira decisão foi juntar-se a Cleópatra. Otávia continuava no Ocidente, confiada ao seu irmão. O Inverno de 37-36 pas­sou-o na Síria. Enquanto os preparativos de guerra prosseguiam, renas­ceu a intimidade entre Antônio e a rainha. As duas crianças de 40, Ale­xandre e Selênia, foram reconhecidas oficialmente, o que fazia de Antônio, do ponto de vista moral, o protetor do reino do Egito e o ligava mais estreitamente à dinastia legítima. Era uma solução muito hábil para o problema político colocado pelo Egito, cujo governo não era fácil. Antônio e Cleópatra opunham-se radicalmente um ao outro, devido a tudo o que representavam. A rainha tentava desesperadamente manter um reino anacrônico no mundo romano. Antônio esforçava-se por ligar mais estreitamente do que nunca este mesmo reino à sorte de Roma e por mobilizar as suas forças sem correr os riscos de uma anexa­ção declarada. Para realizar as suas intenções estes dois rivais, estas duas políticas, não tinham outro meio senão amar-se. Ora, e aí reside o mila­gre, nem a um nem ao outro isso desagradava.

Parece que Antônio tinha perfeita consciência desta situação. Julgava-se chamado a um destino quase sobrenatural e gostava repetir que não confiava a sua linhagem a um ventre feminino apenas, que não era condicionado pelas leis de Sólon sobre a legitimidade da sua descendên­cia, mas deixava à natureza o cuidado de começar e fundar muitas dinas­tias.24

O deus que tinha em si e o que o levava a amar, a prodigalizar-se em abraços sempre renovados, era o seu guia e a sua força. Não tinha sido Dioniso tanto o conquistador como o deus da orgia, da sexualidade de­senfreada? Quanto a Cleópatra, era a Ísis-Mãe, personificação da femi­nilidade e da fecundidade, de que são prova as suas sucessivas materni­dades, figura mística da esposa, que, com as suas carícias, devolvia a vida ao marido, que as potências do mal se obstinavam, em vão, por arrancar. No Egito, os Ptolomeus tinham inventado um deus novo, Serápis, em que se fundiam o antigo Osíris e o Dioniso grego, e este deus tinha-se tornado rapidamente popular em todo o mundo mediterrânico, a ponto de, na própria Roma, os poetas fazerem o seu elogio '’. Tudo estava pronto para a aventura “inimitável” dos dois aman­tes, unidos, quisessem-no ou não, por uma situação política que não tinha outra saída senão o seu amor e também pelos mitos que se tinham formado antes deles e os envolviam como a rede mágica em que Hefestos, em tempos muito antigos, tinha surpreendido os amores de Afrodite e Ares.

Esta extraordinária situação prolongou-se durante seis anos. Otávia, que tinha compreendido Antônio e lhe era tão fiel como o tinha sido anteriormente Fúlvia, esforçou-se por dar-lhe o que ele pretendia de Cleópatra: armas e dinheiro. Veio até ao Oriente com estes presentes arrancados ao irmão. Ele teve a coragem de não sucumbir a esta tentação e de prosseguir no seu desígnio. O que eram dois ou três mil homens ao lado dos recursos de um reino? E depois, Cleópatra, face ao perigo, tornou-se insistente e entrou mais do que nunca na comédia do amor. Em breve, a ruptura estava consumada e Antônio, que se tornara de fato, como tencionara, rei helenístico, encontrou-se na obrigação de aceitar a guerra contra Roma. Assim terminou, nas águas de Áccio, este drama, que, se a fortuna tivesse dado a vitória à frota antoniana, teria alterado certamente a face do mundo. Porém, os encantos envelhecidos de Cleópatra não teriam tido nisso nenhuma responsabilidade.

No entanto, a derrota de Antônio e o fim da “vida inimitável”, que se tornou em uma união na morte, não aboliram a experiência nem suprimi­ram a mística da realeza "dionisíaca”, que encontrará outros meios para sobreviver na própria Roma.

Na noite que precedeu a morte de Antônio, cerca da meia-noite, en­quanto a cidade de Alexandria permanecia silenciosa, dominada pela angústia, eis que o ar se enche de uma música sobrenatural. Dir-se-ia os sons de uma infinidade de instrumentos diversos, acompanhando os cantos e os gritos de uma multidão de bacantes. Este tumulto encheu as ruas em um instante sem que ninguém fosse visto. Em seguida, deslocou-se e chegou à porta que se abria em direção ao inimigo. Aí, redobrou de intensidade e, abruptamente, terminou, como se a multidão invisível ti­vesse deixado a cidade. Todos os Alexandrinos entenderam e compreenderam: era Dioniso que abandonava Antônio26.

De fato, era também o fim de uma era: a lei de Roma ia substituir a mística orgiástica de que Antônio e Cleópatra foram os últimos adeptos no trono dos Ptolomeus. Otávio, o novo senhor, era um conquistador triste. Arrastava atrás de si o puritanismo romano, cuja austeridade imi­tava sem dele ter as virtudes. Durante muito tempo, tinha tentado revol­tar a opinião romana contra Antônio, revelando o que chamava as suas “torpezas”, e Antônio, em cartas destinadas ao público, respondia-lhe com desenvoltura e sem qualquer pudor:

"Por que te modificaste a meu respeito? É porque durmo com a rainha? Ela é a minha mulher. É por ter começado agora, ou porque dura há nove anos? E tu, será que dormes apenas com Drusila? Desejo-te uma imensa felicidade, se, quando tiveres lido esta carta, não te tiveres deitado já com Tertula ou Terentila ou Rufila ou Sálvia Titisénia ou qualquer uma das outras! Julgas que me incomodo em saber onde e com que mulher fazes amor?"27

É certo que a conduta privada de Otávio não estava isenta de crítica: as que dirigia a Antônio soavam a falso na sua boca.

A história dos seus amores assemelha-se bastante, aliás, à dos jovens nobres. Para começar, ficou noivo da filha de P. Servílio Isáurico, que pertencia ao clã de Servília, pois era neta desta28. A união, evidentemen­te, tinha sido projetada por César, entrando nos seus planos para refor­çar o regime. Todavia, quando terminou o segundo triunvirato, depois da guerra de Módena, os soldados de Antônio e os de Otávio exigiram que a aliança dos seus generais fosse selada por um casamento. Por conse­guinte, Otávio pôs termo ao seu noivado com Servília, a Jovem, e acei­tou a mão de Cláudia, uma filha de Fúlvia e P. Clódio, ou seja, nessa época, a enteada de Antônio, Cláudia era ainda uma criança: “mal tinha entrado na idade núbil”, diz Suetônio29. O casamento não foi consuma­do. Otávio usou o pretextou do seu diferendo com Fúlvia para repudiar a jovem aquando da guerra de Perúsia.

No mesmo ano, no decurso da crise gravíssima que parecia poder abalar definitivamente a sorte de Otávio, este tentou uma aproximação com Sexto Pompeu, que parecia ser o árbitro da situação, e, como prova dos seus bons sentimentos, ofereceu-se para casar com Escribônia, que era tia de Sexto por afinidade. O assunto foi negociado por intermédio de Mecenas e a família de Escribônia apressou-se de aceitar o acordo. Mas não foi um casamento feliz. Escribônia já tinha sido casada duas vezes. Tinha filhos de pelo menos um destes casamentos (nomeadamen­te a jovem Cornélia, a quem Propércio, em 16 a.e.c., iria cantar as virtu­des e lamentar o fim prematuro31) e tomou rapidamente uma atitude au­toritária em relação ao marido, mais jovem do que ela (Otávio tinha então 23 anos), o que desagradou fortemente a este. No entanto, a sua união talvez tivesse durado, se, de súbito, Otávio não se tivesse apaixo­nado por outra mulher e não tivesse resolvido, apesar das dificuldades, efetuar, por fim, um casamento de amor.

Escribônia, tendo casado com Otávio nos últimos meses de 40, tal­ vez mesmo no início de 3932, esperava um filho. Será Júlia, tão amada pelo pai e a quem ela recompensou bem mal um tal afeto. Após a paz de Miseno, celebrada no fim do Verão, acabaram as hostilidades entre os triúnviros e Sexto Pompeu. Escribônia já não era politicamente “útil”. Mas a paz teve ainda outra consequência que iria precipitar o seu repú­dio: os exilados foram amnistiados e entre eles encontravam-se Lívia Drusila e o seu marido Tibério Cláudio Nero. Ambos tinham tomado o partido de Lúcio Antônio, em Perúsia, e, após a derrota, tinham-se refu­giado junto de Sexto Pompeu, com quem, de resto, se entenderam bas­tante mal. Lívia tinha já um filho, que será, mais tarde, o imperador Tibério, mas era extremamente jovem: nascida a 30 de Janeiro de 58, não tinha ainda 19 anos no Outono de 39. Os seus retratos mostram-nos uma beleza calma, o rosto arredondado, a boca voluntariosa. Por isso, despertou no coração de Otávio uma viva paixão. Mas, à primeira vista, dois obstáculos opunham-se a este amor: Lívia era casada e esperava um segundo filho e, na sua família, havia razões sérias para odiar Otávio, dado que M. Lívio Druso Claudiano, o próprio pai de Lívia, tinha sido proscrito e havia-se suicidado depois da batalha de Filipos, onde tinha combatido ao lado de Brutus e de Cássio. Mas Otávio era o senhor e tudo vergou à sua frente. Logo que Escribônia deu à luz a sua filha, Otávio repudiou-a. Depois, conseguiu, não sabemos bem com que argumentos ou pressões, que Lívia lhe fosse entregue pelo próprio ma­rido, um pouco como, anteriormente, Catão, pela sua própria mão, ti­nha dado Márcia a Hortênsio33. Mas as circunstâncias eram bem dife­rentes! Antônio, em uma das cartas insultuosas que escreveu de Alexandria ao seu rival, assegura que Nero teve de ser testemunha da sua própria desonra, no dia em que, durante um banquete a que assistia com Lívia e Otávio, este, incapaz de resistir à paixão, deixou abruptamente a sala de jantar, levando Lívia para um quarto vizinho e trazendo-a de­pois com as orelhas vermelhas e o cabelo em desalinho.34 Nero, nestas condições, tinha que renunciar à mulher que o senhor desejava e Lívia, por seu lado, não podia fazer mais do que obedecer. Fê-lo com bastan­te relutância, parece jovem esposa, prestes a ser mãe segunda vez, repugnava-lhe abandonar o marido com quem partilhara os perigos da guerra e as dificuldades do exílio. Teve, no entanto, de deixar a casa do marido e instalou-se na de Otávio, onde, a 14 de Janeiro de 38, dava ao mundo um segundo filho, Druso. Três dias mais tarde, casava solenemente com Otávio, não sem que, antes, os sacerdotes tivessem as­segurado que os deuses não levantavam qualquer obstáculo a este ca­samento35. É claro que Antônio, por seu lado, não se comportava me­lhor, mas, a seus olhos, pelo menos, tinha a justificação de sentir-se um deus e comportar-se como tal. Quanto a Otávio, deixava-se arrastar simplesmente para uma imoralidade burguesa.
 
Se, para casar com Lívia, Otávio não tivesse, então, de afrontar a opinião pública (que não se coibiu da maledicência), poderíamos pensar que não era apenas o amor que estava em causa nesta história: uma ali­ança com os Claudii, a gens muito aristocrática a que Lívia pertencia, consagrava, de alguma forma, a reconciliação entre o herdeiro de César e os proscritos de 43. Mas por que teriam de ser necessariamente insen­satos todos os casamentos de amor? O de Otávio, em todo o caso, foi-lhe extremamente vantajoso.
 
No fim da vida, Augusto manifestava ainda a Lívia a sua ternura. No último momento, disse-lhe: “Lívia, recorda a nossa união, enquanto vi­veres. Adeus!” Foram as suas últimas palavras36. Não há dúvida de que, segundo o testemunho do próprio Augusto, este casamento, celebrado à pressa, com violência e escândalo, foi uma união feliz. No entanto, se não quisermos julgar apenas pelas aparências, como podemos chamar feliz um casamento que ficou estéril, ou quase (só nasceu um filho, mas não sobreviveu), e quando a ausência de herdeiro direto constituiu para Augusto um drama que carregou a vida inteira? Seria feliz, ainda, um casamento durante o qual Lívia permaneceu fiel, mas que teve muitas aventuras conduzidas por Augusto com toda a liberdade, às vezes mes­mo com a cumplicidade da mulher? Se Augusto o avalia diferentemente de como somos tentados a fazê-lo, é porque não se sentia sujeito aos imperativos comuns e porque, à semelhança dos Romanos do seu tem­po, punha acima dos “acidentes” da carne esta concordia, esta identida­de de vontades, que nos pareceu ser a grande conquista do amor romano.
 
Os próprios amigos de Augusto não negavam os seus adultérios, como nos diz Suetônio. Desculpavam-no, assegurando que não os cometia por gostar do deboche, mas por cálculo, a fim de melhor se informar sobre os segredos dos maridos a que seduzia as mulheres37, um argumento que não é talvez muito convincente e que, a ser verdadeiro, não é lá muito abonatório do príncipe. Pouco faltou, aliás, para que uma destas aventu­ras se virasse contra ele. Teve uma longa ligação com Terência, a mulher do seu mais antigo partidário, Mecenas. Seria para vigiar este, em geral silencioso e secreto? Tal não é, por certo, impossível, pois dizia-se que Terência era caprichosa, altiva e, seguramente, não tratava melhor o seu amante “habitual” do que o marido. Ora, esta mesma Terência não soube guardar um segredo de Estado e revelou ao seu irmão. Terêncio Murena, que a conjura formada por este tinha sido descoberta38, o que impediu Augusto de desvendar, como desejava, todas as ramificações da conspi­ração.
 
Lívia, por seu lado, nunca traía um segredo e o marido pedia-lhe frequentemente conselhos. À medida que passavam os anos. parece que a sua influência cresceu. É-nos difícil saber hoje com rigor o papel que desempenhou na formação e no estabelecimento do regime imperial. Os indícios que se invocam nem sempre permitem uma interpretação segu­ra, mas é certo que sem Lívia o Império não se teria tornado naquilo que vemos quando Augusto morre.
 
Como as “matronas” da geração precedente, Lívia trabalha para ele­ para sua gens. Pertence à tradição de uma Servília e de uma Clódia e a sua gens, a dos Claudii, não tem sempre os mesmos interesses que os Julii. Toda a habilidade de Lívia vai consistir em pôr ao serviço dos primeiros o poder que César e depois Augusto deram aos segundos, e esta habilidade era grande. Conhecemos o juízo do seu bisneto Caligula (Caio César) acerca dela: “um Ulisses de saias”39. Caligula conheceu-a apenas na velhice, mas começa-se a detectar a sua influência muitos anos mais cedo. O grande problema de Augusto não era o de governar, mas o de assegurar a sua sucessão, fazer com que o sistema político que construíra e que se fundava na sua pessoa pudesse um dia funcionar sem ele. O seu poder pessoal dependia, em parte, do carácter semidivino que a opinião dos Romanos lhe reconhecia: era divifilius, filho do deus César. A quem transmitir este carisma senão a um filho? Ora, Lívia, de fato, não se revelava uma esposa fértil. Mas tinha dois filhos do seu primeiro casamento. Tibério e Druso. Não poderia conseguir que Augusto os adotasse, como ele mesmo tinha sido adotado por César e de quem não era realmente filho?

Lívia levou longos anos para arrancar o Império das mãos dos Julii e dá-lo a um Cláudio, a este Tibério por quem Augusto não sentia nenhu­ma simpatia e que, no seu íntimo, era mesmo republicano. É possível que o acaso tenha favorecido as intenções de Lívia, fazendo desaparecer um a um todos os herdeiros que o príncipe sucessivamente escolheu: o jovem Marcelo, a partir de 23 a.e.c., e depois os dois netos de Augusto, Caio e Lúcio, os “príncipes da juventude”, que morreram respectivamente em 4 e 2 d.e.c. Não se tem hoje coragem de supor que Lívia ajudou a sua sorte, mas estas mortes sucessivas serviram-lhe tão bem que todas as suspeitas permanecem legítimas. Por fim, triunfou e foi a sua vontade que impôs Tibério, que Augusto se resignou a adotar, porque não dispunha de mais escolhas.

Para além destes dramas secretos, a casa de Augusto conheceu outro, que teve também por origem as intrigas de uma mulher. Antes do seu repúdio, Escribônia tinha dado ao príncipe uma filha, Júlia, que este conservou junto de si e que criou na tradição de austeridade das antigas casas nobres. Júlia, na sua juventude, fiava a lã e tecia as túnicas do pai, o que não impedia que recebesse a educação refinada e a cultura das mulheres do seu tempo. Augusto sentia, certamente, pela filha uma grande afeição, mas esperava sobretudo, graças a ela, resolver o difícil proble­ma da sua sucessão. Como Lívia não era capaz de lhe dar um filho, Júlia podia trazer para a casa imperial um genro capaz de assumir um dia o encargo do poder. Sabia-se que, muitos séculos antes, os reis de Roma transmitiam assim a sua dignidade. Não foi por acaso que Propércio e Virgílio recordaram, cada um a seu modo, este antigo costume40. No tempo de Virgílio, contava-se como o velho Latino, o rei dos Laurentes, tinha concedido a Eneias a mão de Lavínia e o seu próprio reino. Augusto escolheu para genro o jovem Marcelo, ele mesmo filho de Otávia, a irmã do príncipe. Menos de um ano mais tarde, Marcelo morria. Júlia tinha apenas 16 anos. Augusto apressou-se a casá-la uma segunda vez. O novo marido de Júlia foi Agripa, fiel companheiro de Augusto. Agripa teve de dissolver o seu casamento, que, no entanto, era feliz, com a filha mais velha de Otávia, Marcela. Tinha quarenta e um anos. Esta escolha, bastante surpreendente, foi, sem dúvida, ditada a Augusto pela lembran­ça da crise que, em 23, quase conduziu o regime à destruição. Estando muito doente, teve de pensar, em determinada altura, em assegurar a sua sucessão em um futuro que podia estar muito próximo. O homem que de­signou foi precisamente Agripa. É natural que tenha querido tornar defi­nitiva a solução que, em 23, fora apenas uma improvisação arriscada.
 

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